A convenção nacional do Partido Liberal realizada no sábado (25) em São Paulo exibiu um vídeo produzido por inteligência artificial que simula um pronunciamento de Jair Bolsonaro. No material, o ex-presidente — atualmente em prisão domiciliar — afirma estar "preso e calado por uma decisão arbitrária" e declara que nenhuma prisão silenciará o movimento que lidera.
A exibição ocorreu no momento em que a legenda oficializava candidaturas e diretrizes para as próximas eleições. O recurso tecnológico permitiu que a imagem e a voz do ex-mandatário fossem recriadas digitalmente para contornar a restrição judicial que impede manifestações públicas. Segundo reportagem do G1, a iniciativa gerou debate imediato entre juristas e cientistas políticos sobre os limites da legislação eleitoral para conteúdos sintéticos.
Especialistas em direito eleitoral ouvidos pela imprensa apontam que a legislação atual não prevê explicitamente o uso de deepfakes autorizados pelo próprio representado em atos partidários. Há quem sustente que a medida fere a Lei das Eleições ao simular presença e fala de quem está impedido de se manifestar; outros argumentam que, sendo o vídeo identificado como produção de IA e autorizado pelo titular dos direitos de imagem, não haveria ilícito.
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) já editou resoluções que exigem rótulo em conteúdos sintéticos e proíbem deepfakes com finalidade de desinformar. O caso do PL testa a fronteira entre transparência tecnológica e burla a decisões judiciais. A legenda não informou se consultou a Justiça Eleitoral antes da exibição.
No campo político, adversários classificaram a estratégia como tentativa de vitimização e desrespeito ao Judiciário. Integrantes do partido defendem que se trata de exercício de liberdade de expressão amparado por nova ferramenta de comunicação. A divergência expõe a falta de consenso sobre como regular a IA no processo democrático brasileiro.
O episódio inaugura precedente que deve pautar discussões no Congresso e no TSE sobre regras claras para mídia sintética em campanhas. O desfecho jurídico poderá definir parâmetros para o uso da tecnologia nas próximas disputas eleitorais.