Enquanto bilionários como Jeff Bezos acumulam fortunas que superam o PIB de países inteiros, famílias em Goiânia enfrentam o aumento do custo de vida e a escassez de serviços básicos. A desigualdade de renda na capital cresceu 12% entre 2019 e 2023, segundo o IBGE, reacendendo debates sobre uma nova forma de exclusão social, inspirada em estruturas do Antigo Regime.
A metáfora dos 'dois casamentos' — entre riqueza e poder, entre herança e perpetuação — reflete o desejo de elites contemporâneas de construir dinastias econômicas, semelhante à monarquia absolutista que culminou na execução de Luís XVI em 1793. Assim como a nobreza francesa ignorava a fome do povo, hoje, a concentração de riqueza em poucas mãos se traduz em acesso desigual à saúde, educação e conectividade digital. Essa lógica de exclusão não é apenas econômica, mas simbólica: quem não pertence ao novo clube dos bilionários é invisibilizado.
Segundo o Jornal Opção, em Goiânia, 37% dos trabalhadores informais não têm acesso a plano de saúde privado e 52% gastam mais de 30% da renda com transporte, enquanto empresas de logística ligadas a grandes plataformas digitais lucram bilhões. A distância entre o patrimônio de Bezos — estimado em US$ 194 bilhões pela Forbes — e a realidade de quem vive com menos de dois salários mínimos torna-se cada vez mais insustentável. O que era crítica literária, agora é dado estatístico.
O escritor italiano Claudio Magris, em 'Danúbio', observou como a nostalgia da aristocracia esconde o medo da mudança e da perda de privilégios. Hoje, essa nostalgia se transforma em estratégia: bilionários investem em fundos de herança, fundações e até colonização espacial, buscando eternizar seu poder. Em vez de títulos de nobreza, usam ações e algoritmos. O resultado é o mesmo: uma sociedade dividida entre quem decide e quem apenas obedece.
Em Goiás, onde a renda média per capita é 40% menor que a média nacional, a exclusão digital e a precarização do trabalho ampliam essa divisão. Famílias que não têm acesso à internet de qualidade não conseguem concorrer a vagas de emprego remotas, nem acessar serviços públicos online. O que antes era desigualdade territorial torna-se desigualdade tecnológica — um novo sistema de castas, onde o último escalão é o invisível.
A história não se repete, mas ressoa. Quando a riqueza se torna herança e o poder se eterniza em silêncio, a sociedade perde sua capacidade de se renovar — e os mais pobres pagam o preço.