O Ministério Público Federal abriu investigação para apurar o que classifica como grave deterioração nas condições de saúde de uma comunidade do povo Yanomami, onde foram registrados casos de leishmaniose. A apuração mira a responsabilidade do poder público na assistência sanitária ao território indígena.
A investigação foi instaurada após o MPF identificar indícios de falhas sistemáticas no atendimento prestado pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) na região. Segundo reportagem do G1, o procedimento busca reunir provas sobre a falta de medicamentos, a precariedade de unidades de apoio e a demora no diagnóstico da doença, que é transmitida pelo mosquito-palha e pode evoluir para formas graves se não tratada a tempo.
A leishmaniose tem incidência histórica nos territórios Yanomami, agravada pelo garimpo ilegal que desmata áreas de floresta e aproxima vetores das aldeias. Dados do Ministério da Saúde mostram que a população indígena apresenta risco até quatro vezes maior de contrair a enfermidade em comparação à média nacional, quadro que se agrava com a escassez de profissionais de saúde dispostos a atuar em áreas de difícil acesso.
O inquérito civil pode resultar em ação civil pública para obrigar a União a recompor equipes, garantir estoque de anfotericina B e meglumina de antimônio — fármacos de referência para o tratamento — e restabelecer o transporte fluvial e aéreo de pacientes graves. A Procuradoria também avalia pedir o bloqueio de verbas emergenciais caso a gestão não apresente plano de contingência em prazo razoável.
Organizações indigenistas acompanham o caso e alertam que a deterioração sanitária não é isolada: relatórios recentes apontam surtos de malária, desnutrição e tuberculose nas mesmas regiões, num ciclo que expõe a fragilidade da política de atenção diferenciada prevista na Constituição.
A apuração do MPF pressiona o governo a apresentar respostas concretas para uma crise que se arrasta há anos e coloca em risco a sobrevivência de povos originários.