A lógica do lucro domina a decisão sobre quais medicamentos para doenças mentais são desenvolvidos, segundo alerta da neuropsicofarmacologista Gabriella Gobbi. Em entrevista à Genomic Press, publicada na revista Brain Medicine, ela aponta que tratamentos promissores são abandonados por falta de retorno financeiro. Isso tem impacto direto no acesso a inovações terapêuticas no Sistema Único de Saúde (SUS) em Goiás.
Gabriella Gobbi, professora da Universidade McGill e presidente do Collegium Internationale Neuro-Psychopharmacologicum, critica a influência do capital de risco na pesquisa farmacêutica. Ela explica que a busca por lucro leva as empresas a priorizarem drogas com grande potencial de mercado, como aquelas para doenças crônicas de alta prevalência, em detrimento de inovações para transtornos psiquiátricos complexos. Como resultado, numerosos compostos com eficácia científica comprovada em fases iniciais de testes são descartados antes de reaching pacientes.
Conforme apurou o G1, essa dinâmica não é nova, mas se intensificou nas últimas décadas com a concentração da indústria em medicamentos blockbusters. O relatório da cientista sugere que o modelo atual de financiamento privado cria um viés que exclui terapias potencialmente transformadoras, mas menos rentáveis.
Historicamente, o desenvolvimento de fármacos para saúde mental tem sido lento, com poucos avanços significativos nas últimas gerações de antidepressivos e antipsicóticos. Enquanto isso, doenças como depressão e ansiedade afetam milhões de brasileiros, segundo dados do Ministério da Saúde.
Em Goiás, o SUS fornece medicamentos psiquiátricos básicos, mas a oferta de novas terapias é limitada e sujeita a atrasos. Pacientes goianienses com transtornos resistentes, por exemplo, podem não ter acesso a opções modernas que já estão disponíveis em outros países, devido aos custos elevados e à falta de interesse comercial das farmacêuticas.
A situação evidencia a necessidade de políticas públicas que estimulem a pesquisa independente e garantam que medicamentos eficazes cheguem ao SUS independentemente do potencial de lucro. Para os pacientes goianos, isso significa potencialmente mais opções de tratamento e menos barreiras financeiras.