Cientistas iniciaram levantamento detalhado do fundo do mar no arquipélago de Fernando de Noronha para entender mudanças já detectadas nas comunidades bentônicas. O trabalho busca separar os efeitos do aquecimento global, da pressão turística e da invasão do peixe-leão, espécie venenosa presente na ilha desde o fim de 2020.
A pesquisa concentra-se no bentos — camada de substrato que abriga corais, algas e pequenos organismos —, indicador sensível da saúde dos recifes. Segundo reportagem do G1, os primeiros dados já mostram transformações na composição dessas comunidades, o que acendeu o alerta para uma investigação mais profunda das causas.
Três vetores principais estão sob análise: o aumento da temperatura da água, o fluxo crescente de visitantes nas áreas de mergulho e a expansão do peixe-leão, predador voraz sem inimigos naturais na região. A espécie, originária do Indo-Pacífico, foi registrada pela primeira vez no arquipélago em dezembro de 2020 e desde então tem sua disseminação monitorada pelo ICMBio e por grupos como o Projeto Tamar e a UFPE.
O desenho do estudo prevê coletas periódicas e análise de séries históricas para distinguir variações naturais de tendências antropogênicas. A expectativa é que os resultados subsidiem planos de manejo mais rigorosos, incluindo controle da espécie invasora e regras de visitação que reduzam o pisoteio e a poluição local.
Em águas continentais, monitoramentos semelhantes de comunidades bentônicas vêm sendo aplicados em reservatórios e rios goianos para detectar precocemente efeitos de espécies exóticas e de ondas de calor, embora os ecossistemas sejam distintos.
O diagnóstico em Noronha deve orientar medidas concretas de proteção dos recifes, servindo de referência para estratégias de conservação em outros ambientes aquáticos sensíveis.