Um modelo matemático do Rabobank indica que o atual ciclo do El Niño pode se tornar o mais intenso já registrado no Brasil, com potencial para elevar em até 19,9% o custo de itens como carnes e hortaliças. A projeção considera choques climáticos que afetam a produção agropecuária e cujo reflexo nos preços tende a atingir o pico seis meses depois.
Segundo reportagem do G1, o estudo cruzou séries históricas do fenômeno com dados de inflação do IBGE e do Banco Central para estimar o impacto nos preços ao consumidor. Em cenário de El Niño forte, a alta nos alimentos in natura pressionaria o índice geral de preços, dificultando o controle inflacionário.
A transmissão do choque climático para as gôndolas não é imediata. Pesquisadores explicam que secas ou chuvas excessivas reduzem a oferta no campo, mas o repasse ao varejo depende de estoques, logística e da capacidade de substituição de produtos. O intervalo de até meio ano entre o evento climático e o pico de preços dá margem para ajustes de política monetária.
Para as famílias, o efeito recai sobre itens de consumo diário e difícil substituição. Carnes, verduras e legumes respondem por fatia relevante da cesta de baixa renda, o que torna a alta desproporcionalmente mais pesada para quem ganha menos. Supermercados já monitoram a safra e negociam contratos de fornecimento para atenuar repasses.
O Banco Central acompanha a variável climática como fator de risco para a meta de inflação. Autoridades monetárias sinalizam que, se a pressão de alimentos se confirmar, a resposta pode envolver manutenção de juros elevados por mais tempo, com reflexos no crédito e no consumo.
O tamanho do impacto final dependerá da intensidade real do fenômeno e da resposta da oferta agrícola nos próximos meses.