Em 1957, a abertura acidental de colmeias com rainhas africanas em São Paulo deu origem às abelhas africanizadas, híbridos agressivos que se espalharam pelo continente. O geneticista Warwick Kerr havia introduzido as 26 rainhas para melhorar a produção de mel no clima tropical. O episódio, que gerou polêmica na época, redirecionou a apicultura brasileira e virou caso de estudo em genética de insetos.
O experimento começou no final da década de 1950, quando Kerr, então pesquisador do Instituto de Genética de Ribeirão Preto, trouxe rainhas da subespécie Apis mellifera scutellata da África. A ideia era cruzá-las com abelhas europeias já estabelecidas no país, criando uma linhagem mais produtiva e adaptada ao calor.
Os híbridos resultantes mostraram comportamento defensivo intenso, capacidade de enxamear com frequência e adaptação superior a regiões tropicais. Em poucos anos, colonizaram o Brasil e avançaram pela América do Sul, Central e do Norte, chegando aos Estados Unidos na década de 1990. Segundo reportagem do G1, a fuga ocorreu quando um assistente removeu excludentes de rainhas, permitindo que enxames se dispersassem.
Kerr não era um novato: formou-se em engenharia agronômica, doutorou-se em genética nos EUA e dirigiu o Inpa, a Fapesp e a SBPC. O episódio das abelhas ofuscou parte de sua carreira, mas ele seguiu pesquisando genética de insetos e defendendo a ciência nacional. Em depoimentos posteriores, reconheceu o risco do acidente, mas sustentou que a africanização trouxe ganhos de produtividade para o mel brasileiro.
Hoje, o Brasil é um dos maiores exportadores de mel do mundo, e Goiás figura entre os principais estados produtores, com apiários familiares que convivem diariamente com as abelhas africanizadas. O manejo desenvolvido a partir do acidente de 1957 — como a troca periódica de rainhas e o controle de enxameação — é prática padrão nos municípios goianos que sustentam a cadeia apícola.
O caso Kerr ilustra como um erro de laboratório pode reconfigurar uma atividade econômica inteira. Seis décadas depois, a apicultura tropical ainda opera sobre as bases genéticas e técnicas nascidas daquele acidente em Ribeirão Preto.