Uma agricultora do Acre registrou em vídeo um cágado de aparência incomum atravessando a BR-317 em Sena Madureira, em junho de 2024. O animal, posteriormente identificado como mata-mata (Chelus fimbriatus), é nativo da Bacia Amazônica e raramente visto em áreas de circulação humana, sinalizando a pressão sobre ecossistemas naturais.
O mata-mata, conhecido por seu pescoço alongado e casco irregular, foi inicialmente confundido com um jabuti pela moradora Larissa Telocken. Após o vídeo ser compartilhado, especialistas confirmaram a identidade da espécie, rara em ambientes urbanos ou rodoviários. O fato chama atenção porque o animal vive em águas paradas da floresta amazônica, longe de estradas movimentadas, o que sugere deslocamento forçado por perda de habitat.
Segundo o G1, a presença de espécies amazônicas em rodovias é indicativa da fragmentação de florestas causada por desmatamento e expansão agrícola. O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) aponta que esses deslocamentos aumentam o risco de atropelamentos e isolamento populacional, ameaçando a sobrevivência de animais já vulneráveis.
O problema não é exclusivo da Amazônia. No Centro-Oeste, áreas como o Pantanal e regiões de Goiás, especialmente nas bordas de áreas rurais próximas a Goiânia, enfrentam fragmentação florestal por causa da expansão da soja e da pecuária. Espécies nativas da região, como o jabuti-tinga e tartarugas de água doce, também são vistas em rodovias, sinalizando padrões semelhantes de degradação ambiental.
No entorno de Goiânia, a perda de corredores ecológicos entre remanescentes de Cerrado tem dificultado a migração natural de animais. O Museu Paraense Emílio Goeldi e a SOS Amazônia destacam que a conectividade entre biomas é essencial para a manutenção da biodiversidade — e quando estradas cortam esses caminhos, o impacto se espalha além da região onde o animal foi visto.
O caso do mata-mata no Acre é um alerta visual sobre a crise de biodiversidade que afeta todo o Brasil. A presença de espécies fora de seu habitat natural em rodovias revela que a degradação ambiental não tem fronteiras regionais.