Em Goiânia, o consumo de álcool permanece enraizado em rituais sociais, mesmo com dados alarmantes de doenças relacionadas. Segundo a Secretaria de Estado da Saúde de Goiás (SES-GO), os casos de cirrose aumentaram 18% entre 2022 e 2023, enquanto a Pesquisa Nacional de Saúde aponta que mais de 55% dos adultos no Brasil bebem regularmente.
O setor de bebidas no Brasil movimentou R$ 120 bilhões em 2023, segundo a Abin, e a publicidade mantém o álcool como sinônimo de celebração, lazer e pertencimento. Em eventos como as festas juninas, o open bar é quase obrigatório, e no Clássico Vovô, a cerveja é parte da tradição de torcida. A normalização cultural supera campanhas de conscientização, mesmo com o Ministério da Saúde apontando que o álcool está ligado a mais de 200 doenças, incluindo câncer e doenças hepáticas.
Segundo o G1, o aumento dos casos de cirrose em Goiás reflete uma tendência nacional, mas com impacto mais agudo em regiões onde o consumo é culturalmente celebrado. A SES-GO registrou 1.247 óbitos por cirrose em 2023, um recorde histórico no Estado. Especialistas apontam que a falta de políticas públicas eficazes e a ausência de restrições à publicidade de bebidas em eventos populares agravam o problema, especialmente entre jovens de 18 a 35 anos.
Historicamente, o álcool foi integrado à vida social brasileira desde o período colonial, e sua presença em rituais — como festas religiosas, comemorações esportivas e encontros familiares — se consolidou como identidade cultural. A OMS destaca que países com forte tradição de consumo, como o Brasil, enfrentam desafios maiores para mudar comportamentos, mesmo quando os dados de saúde são claros. A comparação com países europeus que adotam impostos mais altos e restrições à venda em eventos públicos mostra que mudanças estruturais são possíveis, mas exigem decisão política.
Em Goiânia, a conexão entre álcool e festividades não diminuiu com a pandemia, e o crescimento de bares e eventos temáticos reforça o ciclo. Para o leitor goianiense, isso significa que, embora o consumo seja socialmente aceito, os riscos à saúde estão cada vez mais próximos: a cirrose já é a quarta causa de morte por doenças hepáticas no Estado, segundo a SES-GO. A questão não é proibir, mas repensar como a sociedade celebra — e se permite — o uso da bebida.
Equilibrar tradição e saúde pública exige mais do que campanhas: exige mudança cultural, políticas públicas mais rígidas e responsabilidade do setor privado. Em Goiânia, o desafio é transformar o ritual do álcool em um hábito consciente.